A segunda chance de Deus
A Bondade de Deus constrange e subverte a inteligência humana. O agir divino sempre supera qualquer expectativa, é capaz de frustrar algumas e alargar outras, mesmo assim as atitudes de Deus representam sempre o inédito na vida humana, precisamente porque Ele não age segundo nossa lógica e nosso critério. Ele não se limita às nossas insuficiências.
A misericórdia é sempre o dar-se do Pai para o homem, a ponte construída para que haja diálogo, ou seja, para que consigamos rezar. O Pai sempre nos antecipa, sempre nos ama primeiro. A iniciativa é totalmente Dele, de tal forma que todo amor humano é sempre em resposta a Deus. Ele “amou tanto o mundo que entregou seu filho único para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).
É esse amor que possibilita misericórdia. O Pai não sabe não ser misericordioso, como afirmou o Papa Francisco: “misericórdia é a verdadeira identidade de Deus”. Com efeito, sendo amor, sendo misericórdia o Pai não consegue deixar de nos dar a segunda chance, a possibilidade de levantar-nos de novo, na certeza de que sempre após toda queda, o sorriso de Deus sempre nos aguarda para curar a ferida da queda e fortalecer para evitar a próxima.
Evidentemente que a misericórdia de Deus sugere empenho, compromisso e não uma passividade ancorada no erro, alicerçada em equívocos que nos faz errar ainda mais. Misericórdia pede mudança de postura, mudança de hábitos, qualificação do ser humano. Jesus de Nazaré sempre revelou a segunda chance do Pai. Ele não condenava, Ele constrangia os seus contemporâneos sendo bom, revelando que o Pai os amava apesar de todo e qualquer pecado.
Aquela mulher experimentou isso quando dialogou com Ele: “mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? Disse ela: ninguém senhor. Disse então Jesus: nem eu te condeno, vai, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8, 10-11). Aquele filho também sentiu a subversão de suas expectativas quando simplesmente foi abraçado pelo pai, foi amado por ele, ganhou vida nova e, sobretudo, experimentou a alegra da festa (cf. Lc 15, 22-24). É, certamente assim, a consequência da segunda chance é sempre uma festa. O festejar da existência diante do desafio do viver.
A outra chance de Deus é totalmente para o homem. É aquilo que vai ao âmago da miséria humana e o lembra de que ele é filho de Deus e, por isso, ele pode ser bom. A segunda chance é a mais pura e nobre pedagogia do amor. É preciso dar-se conta dela, experimentá-la e oferecê-la aos outros como fez Jesus. Ele é a encarnação da segunda chance de Deus.
Dando outra chance é como se Deus nos dissesse: “vem filho, vem filha, venha cear comigo, venha assim mesmo, sujo, fétido, pobre, seu lugar está aqui reservado desde a criação do mundo”. Como é consolador saber que podemos tentar de novo; é consolador saber que temos uma nova chance para amar, nova chance de nos enamorarmos pelo sorriso de Deus.
Isso nos encoraja, quebra qualquer prepotência e orgulho, fere o coração para cicatrizá-lo com muito afeto. A segunda chance de Deus é a possibilidade de cada vez e sempre de novo ganharmos Sua aparência, sermos verdadeiramente semelhantes a Deus que é Bom. A segunda chance é sempre porta aberta para as carícias de um Pai que sempre festeja com o contentamento da volta dos filhos.
Alessandro Tavares Alves
IV Ano de Teologia
