Ao iniciar esse texto, faz-se necessário citar um poema do grande Servo de Deus Dom Hélder Câmara: há criaturas como a cana, mesmo postas na moenda, esmagadas de todo, reduzidas ao bagaço, só sabem dar doçura…
Por que considerar a fraqueza como um mistério? Qual sua peculiaridade? Suas consequências? No mínimo esse tema é uma questão em aberto. Um dos maiores obstáculos que encontramos na fraqueza é o sentimento de impotência, ter que lidar com a impossibilidade, com aquilo que está além da vontade, do simples querer humano.
Isso se concretiza nas relações interpessoais e até mesmo com as circunstâncias da vida inteira, como também no relacionamento com o Totalmente Outro, que é Deus mesmo. O Servo de Deus Dom Luciano Mendes de Almeida sempre repetia: o ser humano é temeroso de sua fraqueza, pois dela sempre pode vir o imprevisto. A palavra deste grande homem traduz em muito o sentimento de medo que invade o ser humano por inteiro, o homem não sabe viver sem seguranças, sem garantias, sem solidez.
Nesse sentido a fraqueza revela-se como mistério, algo que se impõe como o limite, expressa a finitude, o não poder mais, o sentir-se pequeno, o sentir-se tão humano, tão pobre, tão carente e tão necessitado.
A parábola do pai misericordioso, ou ainda do filho pródigo (Lc 15, 11-32) relaciona-se intimamente com o tema da fraqueza humana, seu conteúdo é marcado por várias situações que mostram essa fraqueza e também a ação misericordiosa que supre toda dificuldade.
Há sentimentos de limitude no pai e nos filhos, o pai que precisa respeitar a vontade do filho de ir embora (cf. Lc 15,13), o filho mais moço que lidou com a fome em suas mais variadas nuances (cf. Lc 15, 14) e o filho mais velho que lidou com a arrogância da não aceitação de seu irmão que retornava (cf. Lc 15, 29).
Limitemos a pensar no pai, aquele que vê seu filho partir, já conhecendo as dificuldades que ele iria encontrar, uma vez que partiu baseado numa atitude de rebeldia, logicamente impensada e que só teria como consequência o sofrimento. O ‘não’ do pai não foi suficiente, seu querer e sua vontade não foram suficientes para que o filho se mantivesse presente.
O pai sentiu-se fraco, impotente, induzido ao choro e à lamentação, pois estava perdendo aquilo que para ele era mais precioso e que ele mais queria bem. O pai experimentou a solidão, sentiu-se ele mesmo, tão limitado, tão pouco. A frustração é um sentimento primeiro de impotência que se converte em benefícios mais tarde, mas é oriunda da fraqueza.
O filho mais jovem, aquele que foi embora, sentiu-se só, ao perceber-se menos que um humano (cf. Lc 15, 16). Ele precisou aprender a lidar com aquilo que não saiu do seu jeito, extrapolou suas capacidades até levar ao extremo ato de desistir e voltar. Ao perceber-se com fome daquilo que os porcos tinham fome, reconheceu-se o mais limitado dos limitados e mais frágil dos frágeis e então decidiu regressar, tentar de novo.
O filho mais velho, talvez o que mais representa a limitude humana, está preso à arrogância própria de um coração duro e fechado, onde nada nem ninguém entram. É a fraqueza que é unânime ao ser humano. É preciso ser lapidado, esmerilado.
Em toda a parábola a fraqueza apresenta-se com frequência e, com efeito, compõe o sentido do texto. Parece sugerir que Deus nos quer fracos, seres do limite, sempre a olhar o horizonte com um chão longo para caminhar e nesse caminho cair várias vezes.
A fraqueza é o denominador comum de todo ser humano, é a condição de ser gente. Juntamente com a racionalidade é aquela que é marca ineliminável do ser pessoa. A fraqueza é um mistério tão do humano, tão da finitude, limitude que chega a gerar angústia. O sentimento de poder caminhar até certo ponto. Ela coloca o homem no seu devido lugar. O ápice da fraqueza humana é a morte, da qual ninguém se furta.
Olhar a fraqueza a partir da parábola do pai misericordioso é necessário alargar o horizonte, pensar um pouco além, para que ‘o ser fraco’ ganhe sentido. O pai suporta ser fraco, entende que para lidar com ‘o fraco’ é necessário paciência histórica, confiança no Totalmente Outro, ou seja, em Deus.
Ele deixa claro que não se vence a fraqueza, pois é impossível deixar de ser gente, mas a compreende no retorno, na volta. O filho faz o retorno, é vencido pelo seu próprio limite e retorna, volta ao pai que o vê de longe e naquele instante renasce o pai e o filho (cf. L c 15, 20-21). O pai entendeu que a receita para lidar com a fraqueza humana, com o limite que supera o querer, a vontade, é a misericórdia, a possibilidade de renascer e possibilitar que a vida seja gerada novamente.
Isso ocorreu ali, o filho mais velho não entende, está preso a si mesmo, ao tão humano, tão doloroso, tão pequeno. A misericórdia dá sentido ao ser fraco do humano, ou ainda, ao ser humano fraco. Ela permite que ele se recrie e revela para o ser caído a segunda chance de Deus. A fraqueza é um mistério tão humano que se dilui no mistério tão divino.
