Por Pe. Alessandro Tavares
Jesus de Nazaré precisa ser o horizonte do discípulo. Ele deve ser sempre de novo o único crivo da existência, o estilo de ser. Nesse sentido, a compreensão experienciada nos Evangelhos sugere uma revisão corajosa da vida, impele à reciprocidade. O amadurecimento existencial implica uma reciprocidade a Jesus. Disso se presume a sua capacidade de perceber o humano, contemplar o inesperado e as contradições que cada um é.
Ele se ocupa de nossas inconsistências de maneira tão elegante como jamais fora visto. Esse fato faz com que se depreenda a necessidade de uma confiança profunda que se traduz na fé em Jesus e na fé de Jesus. Sua Presença desinstala o humano de seu lugar, de seus reducionismos inibidores, para levar a crer e a ser melhor que antes.
O mestre de Nazaré da Galileia faz com que sejamos capazes de ajustar aquilo que for preciso para ser aquilo que somos chamados a ser. Bertolt Brecht, certa feita, afirmara que “há quem prepare cuidadosamente o próximo erro”. Essa máxima faz-se verdade em uma existência que não se permite ser visitada pelo maior cuidador do humano que é Jesus, Ele é capaz de perceber a fissura do frágil que é o homem. Ele, em sua cruz, explica-nos a nós próprios naquela angústia calada, doída, que faz latejar o coração na hora da incompreensão que machuca e faz a vida lacrimejar tantas vezes em silêncio.
Chico Buarque já indagava: “ o que será, que será que dá dentro da gente que não devia? ” Essa indagação só se percebe na contemplação do Mistério que Jesus é. Sobretudo na sua decisão de se fazer humano. O que Ele viu na humanidade que ainda não vemos, que centelha de esperança O encantara que ainda não nos encanta. O que não O deixou desistir da cruz e que nos tenta a desistir da nossa? O mestre que percorria aquelas aldeias e ainda hoje percorre a estradas empoeiradas de nossas existências não se delimita em nossas estreitas latitudes hermenêuticas. É preciso ser recíproco aos sentimentos de Jesus.
E a reciprocidade de sentimentos se manifesta mediante a forma que Jesus interpretava a vida. Ele lida com a devida delicadeza com nossos defeitos, pois como já manifestara Oswaldo Montenegro em uma de suas canções: “quantos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em você? ”. Só o artesão do humano é capaz dessa ousada gentileza, ou seja, continuar acreditando, para além do quase inacreditável.
A existência humana é marcada por simetrias inesperadas e algumas definitivas. Machado de Assis escreveu em Memorial de Aires: “ A verdade pode ser inverossímil e muitas vezes o é”. O tempo é plural, há passados, presentes e futuros. Cada dimensão temporal apaga a anterior e, sucessivamente a reconstrói. Miguel de Cervantes já escrevera: “ confie no tempo, que muitas vezes traz soluções doces para verdades amargas, pois a verdade anda sobre a mentira como o azeite sobre a água”.
A reciprocidade a Jesus engrandece o humano, faz enfrentar o desgastar da vida com coragem, encarar cada exigência com sabor de ressurreição, com a expectativa do amor depois da dor para, mais tarde, olhar para os machucados e perceber que suas marcas existem, mas eles não doem mais.
Diocese de Leopoldina
