A dimensão vocacional é um qualificativo inerente à existência humana. Apraz pensar aqui sobre essa dimensão no que se refere à vocação sacerdotal e religiosa, uma vez que toca todos os âmbitos do ser humano. Ela é, sem dúvidas, uma questão existencial, atinge o homem por inteiro e exige uma resposta inteira, completa e complexa.
O “Sim” dado como resposta ao chamado, não é um simplório balbuciar de palavras ou um comum jogo delas, mas sim, uma resposta para a vida toda. No relacionamento com Jesus percebemos aqueles que foram chamados como pessoas que se dispuseram, colocaram-se favoráveis a uma mensagem, a um projeto de vida um tanto quanto “inusitado”, “ousado”, “arriscado”, mas foram, seguiram e, com efeito, sofreram muito por ter dado o “sim” ao Mestre.
A vocação é uma questão existencial porque envolve angústia, envolve lágrimas, envolve sorrisos. Envolve o sentimento todo inteiro da pessoa. Às vezes ao pensar no chamado dos primeiros discípulos (cf Mc 1, 16-20) pensa-se no “imediatamente” do deixar tudo e seguir o Mestre, será? É questionável no que concerne à racionalidade, há sempre angústia, medo, dor, surpresa ao ter que deixar uma realidade em função de outra.
Em Jesus isso se agrava mais ainda, seguir um pobre carpinteiro que não tinha onde reclinar a cabeça, que não fazia elocubrações teológicas, não era tão metafísico, que ‘transgredia tudo aquilo que era comum na época’. Seguir um humano tão humano é deveras apostar no risco. Apostar na certeza do “insucesso”, da possibilidade da morte. O “sim” é um entregar-se por inteiro, é tornar-se muito mais do que aquilo que se é, para ser alcançado por um amor indiviso.
Vocação não comporta romantismo, fuga da realidade, desprezo do humano. Ao contrário, comporta o realismo da fé, a entrada na realidade, calçar os chinelos das misérias humanas e contar com o auxílio do Espírito que nos socorre em nossas fraquezas. É preciso gostar do humano, apaixonar-se por ele com centelha divina.
A existência é um constante vocacionar-se à cruz, abraçá-la como algo nosso, uma condição de possibilidade para existir, para estar no mundo. Somos crucificados por nossas contingências, misérias, pecados e somos ressuscitados pela segunda chance de Deus.
A vocação sacerdotal e religiosa, como todas as outras, é uma vocação da cruz, não dá pra pensar diferente disso! Não é uma vocação da poesia, a cruz não é poesia, é algo real, que toca a carne e faz doer. Jesus chamou homens e mulheres pobres para o seu seguimento, eles se encantaram por Ele, quiseram responder ao Seu amor, seguindo – O, colocando-se ao lado Dele, na constante escuta.
Quem assume essa vocação a vive o tempo inteiro, sem nenhuma trégua e em qualquer situação, a vocação torna-se identidade, caráter, qualidade que não mais se retira devido à sua sacralidade. Existir é decisão de Deus e vocação humana, precisamente assim, decisão de Deus e vocação do homem.
Ele se coloca em relação, a serviço, para uma alteridade identitária que o qualifica enquanto ser humano, ser capaz do amor e se capaz de amar.
Alessandro Tavares Alves
III Ano de Teologia
