O Papa Francisco, em sua profunda sensibilidade de pai e pastor, pensa a Igreja a partir desta imagem, precisamente esta ‘um hospital em campo de batalha’. Isso é de enorme significado, e abrange dimensões grandes. É um programa eclesiológico, inspira um novo jeito de ser Igreja, arraigada sempre de novo no Evangelho.
O Santo Padre ao desejar “uma Igreja pobre para os pobres” pede coragem, para ter capacidade de aproximar. Ele insiste na capacidade humana de comover-se de novo, chorar de novo por aquilo que está em desacordo com o Evangelho. É necessário superar a indiferença que mata com crueldade. O Evangelho é novamente necessário, colocar em prática o que disse São Lucas “aproximou- se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e vinho, depois colocou – o em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados” (Lc 10, 34).
Essa parábola precisa ganhar atualidade no hoje da história para que o Evangelho seja novamente o horizonte e Jesus tenha significado na vida e na história das pessoas. Ser hospital em campo de batalha é estar disposto a um diálogo difícil, às vezes quase impossível, mas estar disposto a ele, pois não se pode contar com a reciprocidade pra dialogar, é preciso disponibilidade.
A Igreja ganha significado dessa forma, curando, aproximando, dialogando, aquecendo. Não excluindo ninguém, privando as pessoas da felicidade, privando as pessoas de Jesus. Ela deve construir pontes, não muros, deve ser capaz de fazer companhia na noite escura, colocar os feridos nos ombros, chorar com eles até que sua tristeza se converta em alegria. A alegria da Igreja deve sempre ser uma alegria em consequência da alegria de seus filhos.
Ser hospital em campo de batalha é ser mãe, que não tem medo de perder o seu próprio pescoço pelo bem de seu filho. É dispor- se a buscar a apostar na vida mesmo na sua maior fragilidade. É despreocupar-se consigo mesma. É fazer-se pobre para que não haja pobres em nenhuma dimensão da existência.
A Igreja será assim quando cumprir o mandamento de Jesus “como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” ( Jo 13, 34). O Papa assinala que “a própria beleza do Evangelho nem sempre a conseguimos manifestar adequadamente, mas há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora” (EG, 195). É ser hospital em campo de batalha.
Em Lampeduza o pontífice dizia que: “Hoje ninguém no mundo se sente responsável por isto; perdemos o sentido da responsabilidade fraterna; caímos na atitude hipócrita do sacerdote e do servidor do altar, do qual falava Jesus na parábola do Bom Samaritano: olhamos para o irmão meio morto na beira da estrada, talvez pensamos “pobrezinho” e continuamos pelo nosso caminho, não é tarefa nossa; e com isto nos tranquilizamos, nos sentimos no lugar. A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, nos torna insensíveis ao grito dos outros, nos faz viver em bolhas de sabão, que são belas, mas são nada, são uma ilusão de futilidade, do provisório, que leva à indiferença para com os outros, leva até mesmo à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização caímos na globalização da indiferença. Nós nos habituamos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é tarefa nossa”.
Como são lúcidas as palavras do Papa Francisco, como são proféticas. Isso é ser Igreja em campo de batalha. Preocupar-se de verdade, aquecer o coração das pessoas, não apenas ser indiferente. Assim aponta novamente o papa “estamos em uma sociedade que esqueceu a experiência do chorar, do “padecer com”: a globalização da indiferença nos tirou a capacidade de chorar! No Evangelho escutamos o grito, o choro, o grande lamento: “Raquel chora por seus filhos… porque não existem mais”. Herodes semeou morte para defender o próprio bem-estar, a própria bolha de sabão. E isto continua a repetir-se… Peçamos ao Senhor que anule aquilo que de Herodes permaneceu também no nosso coração; peçamos ao Senhor a graça de chorar sobre a nossa indiferença, de chorar sobre a crueldade que há no mundo, em nós, também naqueles que no anonimato tomam decisões sócio-econômicas que abrem caminho aos dramas como este. “Quem chorou?”. Quem chorou hoje no mundo?
A Igreja será um hospital em campo de batalha quando cada vez de novo converter-se ao Evangelho e renovar seu encantamento por Jesus de Nazaré.
Alessandro Tavares Alves
III Ano de Teologia
Referência
FRANCISCO, PAPA. Evangelii Gaudium: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus, 2013.
