O grande escritor Gonçalves Dias quando compusera sua tão lida e apreciada Canção do Exílio dissera: “ os significados para as grandes questões da existência encontram-se somente no dicionário do coração”. Tendo como premissa o poeta que traduzira em letras as suas saudades, é necessário pensar a saudade da rosa colhida na rua das flores. Monsenhor Chamel foi para o jardim eterno. Este texto não é uma apologia ou mera retórica de memórias póstumas, entretanto, vale letrar uma saudade.
As profundas homilias e referências que se lhe foram feitas já compendiam uma vida que foi notável e notória. Nós o olhávamos com o olhar de admiração, um natural encantamento por alguém que amava ser padre, emocionava-se por sua vocação. Certa feita ele dissera: “ o padre vale o que vale a sua missa”. É incomensurável o eco que essas palavras fazem em qualquer coração sacerdotal.
Padre Antônio andava pelas ruas de Leopoldina e era simplesmente reconhecido e amado. Um sacerdote quase nunca visto com os distintivos inerentes ao ofício, mas era reconhecido simplesmente pelo que era e não pelo que usava. Padre Antônio simbolizou aquilo que o grande teólogo Romano Guardini expressava em sua fineza intelectual: “Beleza não é ornamento”. Seu amor pelo sacerdócio era seu único distintivo. Antoine de Exupéry, no Pequeno Príncipe, dissera que foi o tempo dedicado à rosa que a tornou especial, essa poesia eternizou a Rua das Flores em Leopoldina. O lugar se tornou sacramento, todos sabem que ali morou um padre, ali viveu o padre Antônio.
Ele escolheu um jeito especial de ficar na história, um jeito carinhoso de permanecer no coração das pessoas. A elegância de sua discrição será sempre inesquecível. A suavidade de sua presença, que nunca era invasiva, sempre marcará. Um estilo de ser padre que é a melhor promoção vocacional. Deus recolheu a mais bela flor daquela rua que já tem esse nome. Mostrando que a presença continua. Suas mãos configuraram-se, pelo sacramento da ordem, ao útero de Maria, gerou Jesus em cada sacramento que administrava.
A teologia ensina que sacramento é o sinal, aquilo que aponta para uma realidade que transcende nossa humana capacidade de abstração, aquilo que vai para além de nosso raciocínio amadurecido ou intelectualmente desenvolvido. Nesse sentido, Monsenhor Chamel consagrou-se como um grande sinal divino, uma presença que rememorava Jesus nos corações e nas mentes. Por isso o sacramento da rua das flores, por isso o sinal visível de um abandono misterioso ao Autor de todas as vocações. Ele foi cuidado por Deus, ele cuidou por Deus. Que ele seja recebido com um abraço muito apertado de Nossa Senhora, mãe dos padres e que, de lá, da janela da casa do Pai, interceda por nós todos.
Pe. Alessandro Tavares Alves
Reitor do Seminário Nossa Senhora Aparecida
Diocese de Leopoldina
