A Eclesiologia do Concílio Ecumênico Vaticano II é de inesgotável riqueza e de profundidade enorme. Pensar a Igreja enquanto mistério e ainda como sinal, sacramento do Mistério é sempre necessário. A partir do Concílio a Igreja pergunta a si mesma sobre sua atuação no mundo e qual a sua vocação na sociedade e daí nascem respostas que a conduzem até os dias de hoje.
A chamada ‘virada copernicana’ que ocorreu no concílio foi o fato de a Igreja compreender a si mesma toda ministerial, como Povo de Deus. A ênfase dada pelos padres conciliares a esse tema surtiu efeito para toda a vida da Igreja, isso se efetivou quando colocaram, na composição da Lumen Gentium, o capítulo sobre o Povo de Deus antecedendo o capítulo sobre a hierarquia.
Sobre o mistério da Igreja a Sagrada Constituição Dogmática afirma: o mistério da santa Igreja manifesta-se logo na sua fundação. O Senhor Jesus deu início à sua Igreja com a pregação da Boa-Nova, quer dizer da vinda do reino de Deus (LG 5). A Igreja já nasceu santa, pois seu Fundador é Santo. Assim a Igreja inteira aparece como povo congregado na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo (LG 4).
Essas indicações da Lumen Gentium reforçam o caráter mistérico que está na origem da Igreja mesma. Ela não é produto da razão amadurecida do homem, ou simplesmente da vontade deste. É oriunda da Trindade, e, com efeito, torna-se sacramento dela. Nisso reside o mistério da Igreja.
A sua origem é trinitária e esse é o fator que sustenta sua santidade. A constituição afirma: a santidade indefectível da Igreja, cujo mistério esse sagrado concílio expõe, é objeto da nossa fé. Na verdade, Cristo, Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo é proclamado o “único santo”, amou a Igreja como sua esposa, entregando-se a si mesmo a fim de a santificar; uniu-a a si como seu corpo e enriqueceu-a com o dom do Espírito Santo para a glória de Deus (LG 39).
Esse parágrafo é profundamente significativo, pois reforça a origem da Igreja e sua relação com Jesus Cristo. Ela que não é o reino, mas sim, sacramento dele. Ela é sempre em relação a Ele. A lua que é iluminada e é o espelho que ilumina a terra. Nesse sentido, a Igreja exerce sua função de docente e discente. Discente da Trindade e docente da humanidade, a mãe e a mestra da verdade, o depósito da fé.
Nesse aspecto, oriunda do mistério, ela é do Mistério. Existe para Ele. É sacramento do Mistério. É totalmente envolvida por Ele. Ela existe para mostrar Deus ao mundo, ser reflexo Dele. Ensinar os homens “o Caminho, Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Ela é corpo místico de Cristo. Ela é esposa, como afirma a Lumen Gentium Cristo ama a Igreja como sua esposa, tornando-se o modelo do marido que ama a esposa como ao seu próprio corpo (cf. Ef 5, 25-28); e a Igreja, por seu lado, está sujeita a Cristo, sua cabeça (Id. 23-24). “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9), ele enche com os seus dons divinos a Igreja, que é o seu corpo e o seu complemento (Ef 1, 22-23), para que ela procure e alcance toda a plenitude de Deus (cf. Ef 3, 19) (LG 7).
O Vaticano II permite passar de uma Igreja-Instituição ou de uma Igreja-Sociedade-Perfeita para uma Igreja-Comunidade, imersa no mundo a serviço do Reino de Deus; de uma Igreja-Poder para uma Igreja-Pobre, Despojada, Peregrina; de uma Igreja-Autoridade para uma Igreja-Serva, Servidora, Ministerial; de uma Igreja Piramidal para uma Igreja-Povo; de uma Igreja Pura e sem mancha para uma Igreja Santa e Pecadora, sempre necessitada de conversão e de reforma; de uma Igreja-Cristandade para uma Igreja-Missão, uma Igreja toda ela missionária.
A Igreja é originária do Mistério e diz Dele ao mundo. Ao pensar no caráter peregrino da Igreja sempre é sugerida a reforma, mas é preciso compreender de que reforma e trata. Não é aqui uma simples ‘modenização’ da Igreja, mas sim uma atualização sempre renovada ao Evangelho, a Jesus mesmo. É renovar-se para estar sempre mais fiel a Cristo e à sua vocação de anunciadora da Palavra em todos os lugares.
Ela reflete o Mistério que envolve todo o homem e o homem todo. E, com isso é perita em humanidade, sabe dizer do homem ao homem mesmo, daí sua necessidade para a sociedade e, sobretudo sua indispensável presença para a orientação da vida de fé e a educação para a humanização do homem.
