É sempre de novo necessário pensar no quanto é grandioso ‘ser humano’, ‘ser gente’, habitar nesse mundo. É preciso reencontrar o sentido da existência, da nossa presença aqui, não somos frutos de um acaso, de puras leis da natureza que nos fazem existir como se fosse mágica. Existimos como fruto de um Mistério e um Mistério que é justamente Amor.
O ser humano existe por decisão de Deus, somos seres imaginados por Ele (cf. Gn 1, 27). Ele quis se aproximar da humanidade, a ponto de se tornar um homem, pela encarnação de seu Filho. Deus quis ser humano, quis andar aqui nesse mundo, pisar nessa terra, calçou os chinelos de nossas dores, de nossas angústias e restaurou nossas forças, e, restaura cada vez de novo (cf. Sl 23, 3).
Deus fez do homem o seu principal caminho, a sua melhor via, seu melhor percurso, para que se revelasse amorosamente à humanidade. É preciso compreender a história à luz desse amor, sobre isso São João Paulo II com razão afirmou: “o homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente” (RH 10).
Jesus revela o ser humano a ele mesmo, dá sentido completo ao seu existir, Nele o homem compreende a totalidade do seu significado. Vale a pena citar novamente o santo: “no mistério da redenção o homem é novamente “reproduzido” e, de algum modo, é novamente criado. […] o homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente – não apenas segundos imediatos, parciais, não raro superficiais e até mesmo só aparentes critérios e medidas do próprio ser […] aquela profunda admiração a respeito do valor e da dignidade do homem chama-se Evangelho, isto é, Boa Nova” (RH 10).
É um infinito conforto saber que “o homem tal como foi “querido” por Deus, como por ele foi eternamente “escolhido”, chamado e destinado à graça e à glória, este homem assim é exatamente “todo e qualquer” homem, o homem “o mais concreto”, “o mais real”; este homem depois é homem em toda a plenitude do mistério de que se tornou participante cada um dos 4 bilhões de homens que vivem sobre o nosso planeta, desde o momento em que é concebido sob o coração da própria mãe” (RH 13).
O ser humano é cuidado por Deus, alcançado sempre pela Sua misericórdia. Ele se preocupa com cada filho seu, ninguém é desprezível aos seus olhos. O Papa Francisco sempre de novo nos recorda: “como é maravilhosa a certeza de que a vida de cada pessoa não se perde num caos desesperador, que num mundo regido pelo puro acaso ou por ciclos que se repetem sem sentido” (LS 65).
E ainda afirma Francisco: “cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário” (LS 65). É conveniente experimentar a existência, nos seus sucessos e fracassos, acertos e erros. A vida humana é um constante transitar entre a sexta-feira santa e o domingo da páscoa. O sofrer é condição de existir. A dor é condição para ser gente. Nesse sentido, temos uma esperança que nos move, esperança concreta com um rosto e com um nome: Jesus de Nazaré.
Francisco diz com razão que: “então cada criatura é objeto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo. Até a vida efêmera do ser mais insignificante é objeto do seu amor e, naqueles poucos segundos de existência. Ele envolve-o com seu carinho” (LS 77). Deus quis se aproximar do ser humano de modo humano, alcançando-lhe por inteiro, santificando a existência, tornando-a possível, capaz de ser vivida e melhorada sempre.
Todas as dores e angústias humanas ressoam no coração de Deus, faz-lhe eco provocando sua compaixão para conosco. Deus aquece a existência, ele optou por nós, quis ser um de nós para que queiramos ser Ele, repetir suas ações, professar e ser seu amor no mundo.
Alessandro Tavares Alves
III ano de Teologia
Referências
FRANCISCO, PAPA. Laudato Si: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.
JOÃO PAULO II, PAPA. Redemptor Hominis. São Paulo: Paulinas. 11. Ed. 2010.
