A enchente que atingiu Ubá entre a noite de 23 e a madrugada de 24 de fevereiro provocou impactos significativos na cidade. Segundo dados da Prefeitura Municipal, foram registrados cerca de 170 milímetros de chuva em aproximadamente três horas e meia, fazendo o Rio Ubá alcançar 7,82 metros. O município decretou estado de calamidade pública, enquanto a Defesa Civil acionou o Plano de Contingência para coordenar ações de resgate, assistência e recuperação.
Diante desse cenário de destruição física e trauma social, uma ação pastoral da Diocese de Leopoldina foi organizada para acompanhamento de todo o clero na cidade, como uma reafirmação da presença contínua da Igreja junto às comunidades afetadas. “Esta ação não se limita ao momento destas primeiras semanas, mas se estende conforme a necessidade de acompanhamento pastoral e humano das comunidades”, comentou dom Edson em homilia durante Santa Missa realizada nesta segunda-feira, 02 de fevereiro de 2026, na Igreja Matriz São Januário.

Dom Edson Oriolo presidiu a celebração eucarística, concelebrada pelo pároco, padre Márcio José Ferreira Júnior, pelo vigário paroquial, padre Roberto Peluso e por diversos sacerdotes da região forânea de Nossa Senhora Mãe de Deus.
Além da Santa Missa presidida por dom Edson Oriolo, as demais paróquias da cidade também realizaram celebrações simultâneas nesta segunda-feira (02), contando com a presença de 62 sacerdotes ao todo. Eles são oriundos de diversas regiões forâneas da Diocese de Leopoldina, cujo território abrange 34 municípios da Zona da Mata Mineira. O bispo quer acompanhar de modo mais próximo e exclusivo a realidade pastoral local, fortalecendo a comunhão presbiteral e garantindo um suporte contínuo às necessidades espirituais e comunitárias específicas de cada território paroquial neste tempo de reconstrução.

Na comunidade paroquial de Santa Bernadete, a Santa Missa foi realizada numa das ruas atingidas pela enchente.
Ao longo do dia, diversos sacerdotes realizaram visitas nos territórios paroquiais, percorrendo bairros atingidos, conversando com famílias, comerciantes e lideranças locais, e acompanhando de perto os impactos da enchente em cada comunidade. Na tarde desta segunda-feira, dom Edson também esteve na residência das irmãs da Congregação Religiosa do Sagrado Coração de Maria, localizada na Avenida Beira Rio, uma das áreas mais atingidas pela força das águas. Apesar dos danos materiais consideráveis no térreo da casa, nenhuma das religiosas ficou ferida. Durante a visita, o bispo manifestou proximidade e solidariedade à comunidade religiosa, que também vive o processo de reconstrução após a enchente.
A organização pastoral da Diocese de Leopoldina neste momento de reconstrução em Ubá, com a participação de todo o clero, ficou assim distribuída: a Forania Nossa Senhora Mãe de Deus assessorará a Paróquia São Januário; a Forania Nossa Senhora do Perpétuo Socorro estará junto à Paróquia Divino Espírito Santo; a Forania Nossa Senhora Aparecida acompanhará a Paróquia São José Operário; a Forania Nossa Senhora do Carmo somará forças com a Paróquia Santa Bernadete; a Forania Nossa Senhora das Graças marcará presença junto a Paróquia São Sebastião; e a Forania Nossa Senhora de Guadalupe prestará apoio à Paróquia Nossa Senhora do Rosário.
Durante a Santa Missa que marcou o início desta ampla frente de trabalho da Diocese de Leopoldina, participaram ainda das celebrações os sacerdotes, seminaristas e forças vivas da paróquia. Como comunidade diocesana, acolheram com carinho os membros da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS), vinculada ao Ministério da Saúde, que atua em situações de emergência em saúde pública.
A equipe multiprofissional — composta por médicos generalistas, psiquiatras, enfermeiros, psicólogos, profissionais de saúde do trabalhador, gestores e especialistas em comunicação de risco e engajamento comunitário — está em Ubá oferecendo apoio à Secretaria Municipal de Saúde, capacitação aos profissionais locais e atendimento direto à população, com foco na saúde integral, especialmente no cuidado com a saúde mental diante dos impactos do desastre. Integrantes da equipe também participaram, em grupos, das celebrações realizadas nas cinco paróquias da cidade, apresentando-se à comunidade e orientando os fiéis sobre os cuidados e os canais de atendimento disponíveis neste período pós-enchente.
Os primeiros momentos da tragédia
Em homilia, dom Edson recordou que o clero de Leopoldina estava reunido no distrito de Cachoeiro do Campo, em Ouro Preto, para o seu tradicional retiro anual do clero. Logo nas primeiras horas do dia 24 de fevereiro, os padres tomavam conhecimento do quadro de destruição da cidade de Ubá.
Ao ouvir as primeiras informações sobre a gravidade da situação, levou a realidade para a oração. “Fui para a capela e pedi a Deus: ‘O que que nós, como Igreja, podemos fazer?’” Após o momento orante, orientou que os padres da cidade retornassem imediatamente às suas paróquias: “Quero que os senhores se desloquem para as suas paróquias e sejam verdadeiros sinais de Deus para as pessoas neste momento de dor.”
Dessa forma, as paróquias da cidade intensificaram campanhas de arrecadação de donativos, mobilizando fiéis e voluntários na coleta de alimentos não perecíveis, água, produtos de higiene e materiais de limpeza. Salões paroquiais foram organizados para triagem e distribuição de roupas e calçados, enquanto cozinhas comunitárias das paróquias passaram a funcionar para o preparo de refeições destinadas às famílias atingidas. A entrega de cestas básicas e a organização logística dos mantimentos ocorreram em sintonia com as necessidades identificadas nas comunidades, evidenciando uma ação pastoral que integra assistência material e acompanhamento espiritual.
A Igreja como comunhão do presbitério
Ao refletir sobre a presença dos sacerdotes, dom Edson retomou uma convicção que já havia exposto em escritos anteriores: “A paróquia não é do padre, mas a paróquia é do presbitério.”
A afirmação remete à compreensão eclesiológica expressa na Constituição Dogmática Lumen Gentium (n. 28), do Concílio Vaticano II, que apresenta os presbíteros como cooperadores do bispo na edificação do Povo de Deus. A mobilização dos 62 sacerdotes, distribuídos pelas paróquias da cidade, foi apresentada como expressão concreta dessa comunhão presbiteral. “Vivenciando, rezando este momento difícil, mas mostrando essa presença querida da nossa Igreja frente a tanto sofrimento.”
Misericórdia à luz do Evangelho e do Magistério
Na reflexão central da homilia, o bispo desenvolveu o chamado evangélico proclamado no dia: “Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso” (Lc 6,36). Ele explicou o significado da palavra misericórdia: “Se nós pegarmos a palavra, nós vamos dividi-la: misérias e coração.” A abordagem ecoa a tradição teológica que compreende a misericórdia como compaixão ativa, colocando no coração o sofrimento do outro. Dom Edson recordou ainda o Ano Santo da Misericórdia convocado pelo Papa Francisco em 2015, por meio da bula Misericordiae Vultus, na qual o Pontífice afirmou que “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”.
O bispo também mencionou o ensinamento de São João Paulo II, especialmente a encíclica Dives in Misericordia (1980), que apresenta a misericórdia como atributo central de Deus revelado em Cristo, e recordou a ênfase de Bento XVI sobre a missão da Igreja de manifestar a ternura e a bondade divinas. “Jesus chegando até nós é a epifania da misericórdia de Deus.”
Deus nos contrários da vida
Ao abordar os questionamentos que surgem diante da tragédia, Dom Edson reconheceu a dificuldade humana de compreender o sofrimento. “Sempre nós questionamos: ‘Por que isso?’ Nós não temos muitas explicações.” Ele afirmou que, à luz da fé, é possível perceber que Deus age “silenciosamente nos contrários da vida”. A afirmação encontra eco na tradição bíblica, que apresenta a ação divina em contextos de provação, como recordado pelo próprio bispo ao citar o profeta Joel (Jl 2,12-13), convocando o povo à conversão após a devastação provocada por gafanhotos.
Segundo o bispo, a resposta cristã não consiste em buscar culpados, mas em transformar o sofrimento em ocasião de prática concreta da caridade: “Nós temos que praticar estas obras hoje de fé, de caridade, de esperança.”
A fé do povo como testemunho
Durante a homilia, dom Edson citou o gesto de um homem simples que levou uma pequena doação, mesmo também estando em necessidade. “Ele falou: ‘Padre, é a minha ajuda.’” A referência remete implicitamente ao episódio evangélico da oferta da viúva pobre (Mc 12,41-44), no qual a generosidade não é medida pela quantidade, mas pela disposição do coração.
Ao final, o bispo convidou a comunidade a perseverar na esperança e concluiu convocando os fiéis à firmeza na fé: “Nós somos soldados de Cristo. Nós temos fé. Nós vamos levantar realmente esta cidade.”
A mobilização dos 62 sacerdotes, somada às celebrações simultâneas nas paróquias e às ações pastorais em andamento, marca um momento expressivo da vida diocesana, articulando fé, caridade e comunhão presbiteral em resposta às consequências da enchente.



