É sempre necessário pensar no que é ser cristão nos dias atuais, em meio a indiferença, a volatilidade das seguranças e no apego ao efêmero. Pensar no ser cristão é, antes de tudo, refletir sobre a identidade e sobre um modo de ser humano na sociedade.
Através do Batismo somos introduzidos na comunidade de fé e daí crescemos na consciência de pessoas que possuem um referencial seguro e constante. Deus conquista o ser humano, na força do seu Espírito Santo e através de Jesus Cristo. Com efeito, o homem conquistado se torna um discípulo, coloca-se na escola de Jesus.
A conquista se dá na intimidade, na vocação que vai ao âmago do ser humano, no seu maior recôndito e lá o cativa por inteiro, como consequência, o ser humano se faz dócil à vontade de Deus e quer se orientar por ela. Entende que deve fazer seus desejos serem coerente com os de Jesus Cristo que veio para que a humanidade tenha vida em abundância (cf Jo 10, 10).
Deus conquista o homem por sua Bondade, Verdade e Beleza. Faz com que o coração humano se dilate para caber o amor incondicional de Deus, que sempre nos precede amando. A velha máxima de Santo Agostinho “tarde te amei” ganha sentido na dinâmica existente a relação de Deus com o ser humano. A resposta do homem é sempre depois, posterior, por isso resposta.
O amor sucumbe as amarras, faz com que o homem cresça e se encontre com seu Amor fontal e se inebrie Dele. Experimenta o existir não mais vinculado à angustia e ao desespero, mas sim a esperança de uma superação além da limitude humana. A conquista coloca o ser humano em condição de ser um vencedor sem fazer vencidos, pois no amor, não há um simples outro, a alguém a ser amado, na intensidade da Bondade de Deus.
Nesse sentido sofrer é parte integrante da existência de quem ama, quem se doa, quem se coloca na alteridade que conquista e testemunha um amor que antes envolve e, com isso, supera toda a finitude humana. O amor que conquista faz vencer o medo e faz ter a coragem de correr o risco. Nesse sentido Deus conquista e forma.
A conquista se dá pelo amor e a formação pela misericórdia, ter o coração na miséria do outro, para subtraí-lo de lá. E torná-lo gente de novo. O papa Francisco define misericórdia nas seguintes palavras “é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados sempre, apesar da limitação do nosso pecado”.
É possível entender a misericórdia como uma dimensão do ser humano, a dimensão unitiva que o faz sair de si, numa perene ação quenótica que o faz assumir sua vocação em seu sentido último. A misericórdia desloca, desconcerta, faz passar da possibilidade de ser, para ser efetivamente, pois é um ser além de si mesmo. Misericórdia é atitude doce, mas dolorosa, exigente, como o nascer de uma semente que precisa romper-se para que se plenifique e viva sua potencialidade de ser.
A misericórdia não é ideia abstrata, mas concreta em que o ser humano se sente amado. Ela recria o ser, tanto o que faz uso dela, como quem é atingido por ela. Ela possibilita o retorno, o curvar-se, inclinar-se, fazer-se pequeno, humilhar-se, ser santo. É um misto de ser e dever ser. Gera uma ética, uma modalidade de existir, ela é a efetivação do amor em sentido mais radical.
Ser misericordioso é fazer uma opção vocacional, é querer ser, fazer-se, reconstruir-se na perspectiva da Luz. Era o sentimento que movia Jesus, que possibilitava seu abaixamento como também seu reerguimento. Misericórdia é sentimento de ressurreição.
O efeito da misericórdia é o perdão, aquele que Pedro perguntou a Jesus quantas vezes deveria usá-lo e o Mestre o respondeu setenta vezes sete (cf. Mt 18, 22). O ser misericordioso é crucificado todos os dias, mas enxerga a cruz como o sacramento da ressurreição, princípio de vida nova.
A misericórdia abre o túmulo, impulsiona o êxodo e já antecipa a alegria da chegada. Misericórdia é condição de possibilidade para ser santo, condição de ser gente de verdade, condição de ser sempre mais do que aquilo que se é. Misericórdia é a expressão de Deus que é Bom e que forma o ser humano segundo seu coração.
ALESSANDRO TAVARES ALVES
III ANO DE TEOLOGIA
