A proximidade de Jesus com seus discípulos supera a lógica do espaço e do tempo. É capaz de sucumbir o imaginável, o pensável, o humano. Alarga o horizonte humano reduzido muitas vezes pela efemeridade, inconstâncias, perda de referências, crises de valores, relativismo integral e, sobretudo, no que se refere ao esquecimento do Transcendente.
É, com efeito, necessário sempre de novo, experimentar o “Sou Eu”. Jesus mesmo repetiu aos seus discípulos naquele mar agitado, inundando o barco com o medo, a angústia, a incerteza de atingir a outra margem. Tudo se inicia com o entardecer (cf. Jo 6, 16). Isso é sugestivo e faz pensar, o que acontece no entardecer? Diante do inevitável? À beira da escuridão? Onde se aproxima o medo do desconhecimento, do não ver, do silenciar, do quase perder-se, de até mesmo quase ver fantasmas. A alucinação do medo.
Os discípulos são capazes de remar sem Jesus, mas até certo ponto. Sua ausência é sentida. Quanto mais sentida, mais frágeis eles se tornam, descobrem-se frágeis e os ventos se agitam, o mar se enfurece. Eles se perdem. O sentido do remar começa a se relativizar, marca-se pelo desânimo, pela falta de sentido.
O grupo dos doze, afinados pelo mesmo sentimento, sentem-se um só, na saudade, no medo, tão do humano, tão do limite. No perder-se de um remar carente. No ponto máximo de tudo isso, Ele sempre a sussurrar “Sou Eu. Não tenhais medo”. O que mais poderia ele ter dito? Que palavra dizer além de tudo isso “Sou Eu. Não tenhais medo”?
O encontro com o “Sou Eu” é carregado de consequências que vão além da limitude, do medo tão do humano, tão do limite, tão do efêmero. O “Sou Eu” imprime outra característica, outra capacidade. O “Sou Eu” possibilita e capacita o homem de inaugurar-se sempre de novo, sempre pelo evangelho.
O medo e o “Sou Eu”. Aquilo que cria distâncias, esfriamento, que agiliza o entardecer e retarda o amanhecer, esvai-se, descobre-se com dimensões reduzidas, cabíveis ao momentâneo. O medo diante do “Sou Eu” torna-se possibilidade do encontro, saída, horizontalidade de Páscoa, de um túmulo que está sempre vazio. O evangelista é enfático ao se expressar que o “Sou Eu” apresenta- Se no escuro. O texto vai ganhando outro significado, pois já veem que Jesus se aproxima, mesmo marcados profundamente pelo medo.
Em meio ao escuro, mar agitado e vento forte, conseguiram ouvir “Sou Eu. Não tenhais medo”. E logo querem recolher Jesus no barco, como que numa atitude de quem não deixa ir embora, de não querer sofrer de novo, de manter-se na presença do Bom. Neste sentido é como se já estivessem no porto, na outra margem. Mas a viagem ainda continuava. O tempo e o espaço foram transformados pelo “Sou Eu”, foram transformados no “Sou Eu”. Quebra a lógica.
“Sou Eu. Não tenhais medo”. O evangelista faz duas construções simultâneas, colocando em sentido de imediatez, causa e o efeito, a certeza e o consolo. A ação definitiva. Tudo o que deveria ser dito ao homem, tão desorganizado, tão frágil, tão agitado, tão no escuro, tão ele mesmo na sua limitude e finitude.
Cada discípulo, cada ser humano é composto por estas características, por isso angustia-se diante da impotência, diante do risco do não-ser. Com efeito, tudo ganha outra forma, outro jeito de ser, ‘nasce de novo’. A presença do “Sou Eu” antecipa o céu, antecipa o eterno. O “Sou Eu” presentifica-Se e torna-se recolhido junto aos discípulos, não no barco, mas na margem, já do outro lado, no fim da travessia após o agitamento, o medo do escuro. Escuro não mais intenso, pois a aurora já é certa.
Um homem não caminha sobre as águas, isso é contrário à lógica do existente e do criado. O “Sou Eu” anda sobre as águas, é capaz de contrariar o comum, o dado por certeza. O “Sou Eu” é Deus mesmo, que Se aproxima, no ponto máximo do limite do homem, faz com que o homem seja então discípulo, ou seja, faz com ele seja muito mais do que aquilo que ele é. O discípulo é fruto do “Sou Eu”, há uma transformação do ‘eu’ no ‘Eu’ e isso não ocorre sem dor.
O “Sou Eu” potencializa a alteridade, o pensar no outro que está no mar agitado, no escuro. O “Sou Eu” faz andar sobre as águas, faz, com efeito, caminhar por um espaço inimaginável, movido por um Amor grande. É custoso, no simples limiar humano,preocupar-se com o outro. Isso exige sagrar-se, doer, chorar. Mas na intensidade mais profunda que supera as possibilidades do possível. Essas são as consequências de seguir o “Sou Eu”.
O discipulado envolve precisamente isso: sangrar-se, doer, chorar. É angustiante perceber e ser convencido de que essa é a vocação humana, convencer-se de que isso é identidade, caráter, aquilo que diferencia os seguidores do “Sou Eu” como então é exigente seguir, dispor-se, alteridade. Mover-se por um sentido que faz quebrar o ‘eu’ para crescer o ‘Eu’. Um amoroso sucumbir-se, transformar-se, isso sempre na frágil barca do existir, muitas vezes no mar sob a insegurança do pisar, mas impulsionado pela necessidade de caminhar, na impossibilidade de parar.
O “Sou Eu” é condição de possibilidade da existência do homem; “não tenhais medo” o modo mais seguro e confortador do existir. Soma-se o ser e o dever ser, imbuídos de uma concreta certeza que é repetida sempre “Sou Eu. Não tenhais medo”.
